Antar

“A história de um chefe guerreiro, Antar. Um ser terrível. Era um chefe impiedoso, um bruto, um terror cuja fama ultrapassava o clã e as fronteiras. Comandava os seus homens sem gritar, sem se agitar. Com a sua voz baixa, que contratava com o que dizia, dava as ordens e nunca foi desobedecido. Tinha o seu próprio exército e resistia ao ocupante, sem nunca pôr em questão a autoridade central. Era temido e respeitado, não tolerava a mínima fraqueza ou derrota por parte dos seus homens, caçava os corruptos e punia os corrompidos, exercia um poder e uma justiça pessoais, nunca arbitrários, ia até ao fim das suas ideias e do seu rigor; em resumo, era um homem exemplar, de coragem lendária. Descobriu-se no dia em que morreu, que este terror e esta força habitavam um corpo de mulher. Construíram-lhe um mausoléu no local da sua morte; hoje é um santo ou uma santa; é o sangue dos errantes; é venerado pelos seres que se evadem, por aqueles que partem de casa porque são atingidos pela dúvida, à procura do rosto interior da verdade…

                (…) Trata-se do “chefe isolado”, aquele que fascinou todos quantos se aproximaram dele. Por vezes apresentava-se com um véu; as suas tropas pensavam que ele queria surpreendê-las; com efeito, oferecia as suas noites a um jovem de beleza rude, uma espécie de bandido errante, que mantinha sobre si um punhal para se defender ou para se matar. Vivia numa gruta, e passava o tempo a fumar kif, e a esperar a sua bela da noite. Claro que nunca soube que esta mulher só era mulher sob o seu corpo, nos seus braços. Ela oferecia-lhe dinheiro. Ele recusava-o; ela indicava-lhe os caminhos onde ele podia ir roubar, e garantia-lhe a máxima segurança, desaparecendo em seguida para reaparecer de improviso numa noite sem estrelas. Falavam pouco; misturavam os seus corpos e preservavam as suas almas. Conta-se que se bateram numa noite, porque quando faziam amor ela pôs-se por cima depois de o ter posto de barriga para baixo, e simulou a sodomização. Indignado, ele rugia de raiva, mas ela dominava-o com todas as suas forças e imobilizou-o esmagando-lhe a cara de encontro ao chão. Quando conseguiu livrar-se dela, pegou no punhal, mas ela foi mais rápida, saltou para cima dele, e venceu-o; ao cair, a arma tocou-lhe no braço, ele pôs-se a chorar, e ela cuspiu-lhe na cara, deu-lhe um pontapé nos testículos e partiu. Tinha acabado. Ele nunca mais voltou a vê-lo, e o bandido, ferido, enlouqueceu, deixou a sua gruta e foi-se embora para junto das mesquitas, doente de amor e de ódio. Deve ter-se perdido no meio da multidão, ou foi engolido pela terra que tremeu. Quanto ao nosso chefe, morreu novo sem estar doente, durante o sono. Quando o despiram para o lavar e cobrir com a mortalha, descobriu-se com a admiração que calculam que era uma mulher, cuja beleza apareceu bruscamente como a essência desta verdade escondida, como o enigma que oscila entre as trevas e o excesso de luz.

                Esta história correu pelo país e pelo tempo. Chega hoje até nós um pouco transformada. Não é este o destino das histórias que circulam e que correm com a água das nascentes mais altas? Vivem mais tempo do que os homens e embelezam os dias.”

 

 (Jahar Bem Jelloun, in A Criança de Areia)

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