232 famílias unschoolers dizem que…

Unschooling é uma forma de Ensino Doméstico que, apesar de estar em crescimento, é residual dentro desta opção de aprendizagem e da qual diverge substancialmente. Assim se compreende a dificuldade em encontrar estudos de referência sobre o Unschooling. Na verdade, não é nada de novo, é uma alternativa de educação  (à socialmente imposta, massificante e obrigatória escolarização) que existe deste sempre de forma natural… muito anterior à invenção da escola. Não me interessa aqui apresentar uma definição (basta fazer uma pequena pesquisa no google!)… estou antes numa procura de informação para uma tomada de decisão bem consciente. Até porque eu própria estou impregnada de escola, das concepções e preconceitos sobre a sua importância, e preciso de me assegurar sobre o que me diz a minha intuição.

Nos Estados Unidos da América, onde o Unschooling parece ser mais popular (de onde são algumas das grandes referências pedagógicas, como John Holt ou John Taylor Gatto) vão surgindo alguns estudos, principalmente à medida que jovens que cresceram desta forma chegam à idade adulta. Do Ensino Doméstico é relativamente fácil realizar estudos e obter dados estatísticos, já que a maior parte das crianças e famílias que por ele optam ele estão identificadas. No entanto, é extremamente difícil saber que percentagem destas famílias seguem uma linha de não escolarização (a aprendizagem das crianças é levada a cabo de forma completamente livre e auto-dirigida, sem qualquer formalidade quanto aos curricula escolares). Nos Estados Unidos da América, supõe-se que serão apenas cerca de 10% das crianças dentro do espectro do ED.

Em 2013, Peter Gray (psicologista), levou a cabo uma investigação que, tendo em conta as minhas preocupações, me chamou particular atenção: “Os Desafios os benefícios do Unschooling“. É um estudo resultante de um inquérito a 232 famílias com algumas limitações assumidas mas que não deixa de ser uma contribuição para esclarecer algumas preocupações de mãe.

A maior parte são famílias norte-americanas, mas há algumas poucas contribuições de outras realidades por todo o mundo. São famílias que se auto-proposeram a responder a algumas perguntas abertas através da internet. Isto significa que são pessoas possivelmente entusiastas e bem sucedidas nos propósitoas do unschooling como forma de vida.

Deixo aqui alguns dados que me chamaram mais a atenção:

O que leva as famílias ao Unschooling:

  • Filosofia de vida enfatizando o valor da liberdade e respeito pelas diferenças individuais;
  • Observação da aprendizagem dos seus filhos e experiências emocionais dentro e fora da escola
    • experiência negativa com a escola com um dos filhos – rigidez das regras da escola, natureza autoritária da sala de aula, desperdício de tempo e quantidade irrisória de aprendizagem que ocorre, o tédio da criança, perda de curiosidade e diminuição do interesse em aprender; infelicidade ou ansiedade da criança perante a escola e mesmo casos de bulling;
  • Reflexões sobre as suas próprias experiências escolares negativas;
  • Conhecimento adquirido com escritores, oradores, sites e as experiências de outros famílias unschooling – John Holt, John Taylor Gatto, Sandra Dodd, Dayna Martin, Naomi Aldort, Ivan Illich, Pat Farenga, entre outros autores.

Principais DESAFIOS

  1. Pressão Social – julgamentos negativos ou crítica sobre o Unschool (família, amigos e estranhos) e a constante necessidade de justificar essa escolha;

  2. Descolarização da Mente dos Pais – conflito interno, por parte dos pais, entre a sua filosofia unschooling e as crenças culturalmente arraigadas sobre o valor da escola de que sentem dificuldade em libertar-se [aquilo que mais me faz procurar informação sobre o assunto!!]. A pressão social acima referida contribui para este desafio;

  3. Questões práticas relativas ao Tempo, Carreira e Rendimento. É um estilo de vida que exige grande disponibilidade de, pelo menos, um dos pais o que reduz o tempo para si mesmo, para uma carreira e a oportunidade de proporcionar uma renda adicional [HaHo!!]. No entanto, no estudo participaram famílias de vários estratos sociais. De referir também que é à mãe que costuma recair este desafio.

  4. Dificuldade para Encontrar Amigos. Pode ser difícil para pais e crianças unschooling encontrar indivíduos que compartilhem interesses e/ou uma filosofia comum;

  5. Questões Legaisproblemas decorrentes de disposições legais ou regulamentares que tornam o unschooling ilegal ou difícil de praticar. [Em Portugal não é ilegal (é registado como Ensino Doméstico) mas a sua aplicação pode ser dificultada pela obrigatoriedade das crianças se apresentarem para exames de final de ciclo escolar.]

Principais Benefícios

Os benefícios, percepcionados pelos entrevistados, superam largamente os desafios.

  1. Aprendizagem das Criançasaprendizagem mais eficiente e com maior entusiasmo, e de material  mais relevante para a vida. Alto nível de curiosidade e maior interesse intrínseco na aprendizagem ao longo da vida.

  2. Vantagens Emocionais e Sociaiscrianças mais felizes, menos stressadas, mais auto-confiantes, simpáticas e sociáveis. Estes pais consideram que as crianças têm uma vantagem social, e não desvantagem, porque estão  regularmente em contacto com indivíduos de todas as idades e de diferentes origens, na comunidade ou em casa, em vez de estarem numa sala de aula com colegas da mesma idade.

  3. Unidade Familiarmaior proximidade, harmonia e liberdade. Os pais relatam uma maior proximidade com os seus filhos e melhor relacionamento entre irmãos.
  4. Liberdade de Horários para a Família – estas famílias não estão submtidas ao calendário escolar tradicional (acordar cedo todos os dias ou viajar apenas nas férias escolares) Em vez disso, podem seguir seus ritmos naturais para criar agendas familiares em que cada indivíduo se encaixa.

Crianças saudáveis, felizes, responsáveis e intrinsecamente motivadas. Para isso é preciso tempo. Tempo para explorar, pensar e tomar as próprias decisões. O tempo é um bem importante numa sociedade que o esgota. Para unschoolers, “como passar o tempo” é a maior questão de cada dia, e aprender a fazer essa escolha de forma satisfatória pode ser maior lição. [e dou comigo a pensar na minha formação em Animação Sociocultural… “ocupar animar o tempo”].

Por fim, fica o testemunho de um dos pais que responderam ao inquérito:

 “Unschooling is not a panacea that prevents all unhappiness or difficulty; it’s important not to oversimplify or romanticize this. Our daughters have had problems and struggles like all teenagers do in our society. They are extremely smart and well educated, but I think that would be true if they had gone to school. I think the biggest difference is that they know themselves better than we did at their age. They may be a little closer to their true path in life. That was certainly our hope, and if it turns out to be true, it’s worth a lot.”

 

E o que acontece a estas crianças quando chegam a adultos? Foi mesmo por aí que comecei este blog, já aí voltei e pretendo continuar a voltar. Pode ser que um dia escreva sobre a minha filha adulta.

 


GRAY, Peter; e RILEY, Gina (2013) – “The Challenges and Benefits of Unschooling, According to 232 Families Who Have Chosen that Routein Journal  of  Unschooling  and  Alternative  Learning  2013 Vol.  7 Issue  14

 

1 comentário a “232 famílias unschoolers dizem que…

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