Vestido para te ver voar

Não seria de imaginar que uma criança nascida no meio da morte tivesse gargalhada a cada passo da vida. Mas a Bussi é assim, estremece o mundo sensível com a sua alegria imediata. E, no fim, o esconder da cara e o olhar a fugir para a timidez é a prova de que ela sabe bem o que faz quando solta para o céu escuro o seu grito dobrado de folia. Descalça, para voar melhor. Fiel ao vestido preferido, que importa se já é feito de buracos? O preferido, leve, colorido, esvoaçante, o que mais viveu e sofreu de alegria. Quase 9 anos a viver o que não se sabe, sabe-se que coisa doce, como os seus olhos de amêndoa negra, não é. A sua alegria diz-nos de onde ela vem, das profundezas. Lá, para onde, no último Natal, a mãe foi – foi ter com os que já se iam ido, uns atrás dos outros. Despediu-se sem tempo para pontear vestidos, até já, bom ano, estamos juntos, mas no ano novo nunca mais voltou.

A alegria tem estranha magia. A gargalhada da Bussi continua a chegar ao céu escuro.

Este vestido é para ela.

(Modelo G “summer dress” do livro “a sunny spot”)

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Isto só pode estar melhor

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desde então aconteceram muitas coisas. os cabelos cresceram, o loiro, o preto e o branco. as barbas também. um ficou mais magro, outro mais gordo. houve um grande amor. houve um grande desgosto. houve uma grande viagem que não se fez e tantas outras mais pequenas a acontecer. houve uma nova vida. houve uma saudade louca, muito mais que uma. houve uma casa nova e viver sozinho e um voltar à antiga e enchê-la de vida. houve o marasmo dos dias. houve o entusiasmo extremo e o extremo cansaço. houve uma criança que começou por ser bebé. houve o desespero da solidão e o vai e vem de amigos. houve um mundo a girar sem se esquecer um único dia de o fazer. houve vontade de voltar.
isto só pode melhorar.

 

Pelo ar

Não digam sobre a minha amizade com o vento

que venho ao quintal falar um pouco com o ar que passa, só para saber o que vai no mundo, ver as cores que se usam, enviar o meu cheiro para longe, sorrir às rolas do loureiro e lembrar as folhas verdes que ficaram secas.

Xuuu… Não me denunciem, por favor. Já só me resta essa palavra que lanço ao ar,
último pedacinho de amizade.

Eu estou aqui.
Ocupo um espaço minguante.
Já só é o vento que me faz sair.

Não digam nada, eu sou feliz assim.
Aqui dentro invento-me.
Só preciso de um pouquinho de vento para um pequenino voo galináceo e depois volto para dentro. Só isso.

Mas que não se saiba.
Vai ficar feio.
Até o vento.
Porque tudo o que é meu é feio.
E eu, tão bela, tão amada, tenho de, devo, redundar-me.
É isso.
Não é?

Já só me resta a beleza do vento                               mas só se não se souber.

É. Ficarei tão pequenina que não aguentarei uma corrente de ar.
Terei de fechar as janelas para poder inventar liberdade.
Os vidros são duplos, mas não aguentarão.

Não aguentarei.
Xuuu…

Plástico, fundi-te!

A Ana tem uma vida social mais preenchida do que a minha, por isso, e como ela só tem 4 anos, acabo por ter a função de “assistente pessoal” do crianço: gestão de agenda, administrativa, organizadora, executiva, produtora de conteúdos, motorista, etc e tal.

Mais um aniversário! O do Tomás. “Qual deles?” (a vida dela está repleta de Tomásios! Céus!). E é nestas ocasiões que me ponho a fazer contas… ora:

1Tomás  X  1Catrefada deles = 1Catrefada de suores frios numa caverna comercial -(menos) uma viagem à volta do mundo!

É que eu passo tão bem sem estas equações! Mas, e o que fazer? Fazer! Da crise, as oportunidades!

Eu, que nunca levo saca para ir ás compras porque nunca saio de casa para ir às compras e por isso não me lembro disso, tenho uma tonelada dessas coisas terríveis de plástico na dispensa de casa. E já tinha andado a investigar o que fazer com aquilo… até já sabia o que fazer com aquilo… até já tinha feito alguma coisa para experimentar e que correu lindamente. Faltava-me a motivação para continuar a Fundir Pástico!!!!  A primeira experiência foi um estojo para guardar os nossos passaportes. Ficou muito giro. Fundir várias camadas de sacos de plástico  torna o plástico muito resistente e versátil.

Agora, o Tomás… foi a minha oportunidade de experimentar um pouco mais. Fiz-lhe uma carteirinha para os seus cartões da biblioteca/piscina/hoquéi e ainda espaço para as notas da professora das actividades escolares; um porta-fichas para os carrosséis, e um estojo clássico para as lapiseiras e afins

Eu gostei do resultado final, apesar de bastante tosco… à la “trabalho escolar”- tive pressa de ver o resultado final e o plástico que usei no estojo acabou por ficar demasiado encarquilhado – era para ficar liso, como o da carteirinha. Mas ficou engraçado e funcional.

Claro que, num mundo de plásticos brilhantes e perfeição desumana, imagino que não foi a prenda mais feliz. Mas é original e personalizada, tira-nos uma micro-célula da pegada ecológica, faz parte de um processo de aprendizagem (dois processos – enquanto eu fazia a Ana foi vendo) e foi feita a pensar no Tomás. Já não é mau de todo!

POEMONSTRA

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O mundo está a acabar e do lodo em que definhamos nascem monstros assustadores para quem tem medo. Os monstros comem medo e ninguém quer perder o que tem. Ter é ser, é viver, é sobreviver, é saber estar no lodo, nessa lama nojenta feita de lixo e óleo e terra ácida e fruta e peixe podre e papel de embrulho e ecrãs partidos onde todos aprendem a respirar e de onde alguns conseguem, à força da força do dinheiro, sair para sentar em ruínas altas e lavar os pés na chuva verde piscina. As mãos não se lavam, seguram o papel-medo. O medo é o que se tem, é o que salva, e temos medo de perder o medo e ninguém quer ser comido. Haja poder de saltar de muro em muro sem molhar o sapato ou a sapatilha no lodo onde todos estão mergulhados e, de longe, comprar mais medo!!! Para que, de mãos abertas, jamais lavadas, voltadas para baixo a pingar luxo, assustem os demais – pobres, sujos, porcos – cujo destino é olhar para o fundo e chafurdar. Saltar nos telhados escorregadios é chegar ao céu!!

E é chegados a esta podridão de mundo vicioso que das memórias antigas da natureza rebentam em fúrias os Deuses silenciados por séculos por semi-homens cheios de pudor do que é belo e eterno. Ainda no silêncio das suas inteligências superiores, esses Deuses amados muito antes da razão, rebentam, congeminam, constroem e rogam pragas para a salvação do mundo. Ó fúrias dos ventos, ó fúrias da terra, das águas e fogo… ó fúrias dos loucos, ó fúrias dos artistas sem papel-medo, cândidos, ridículos, pagãos e outros, que sem a força da coragem tudo enfrentam, venham! Espalhem-se! E acabem com isto tudo através natureza da vossa existência. Existam! Comam tudo! Comam todos! Saibam alimentar-se do medo – até à extinção total.

Os monstros nascem assim, da fome de amor.

Sonho de Neve

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É preciso sair. É preciso realizar sonhos. É preciso uma ou outra gigantesca pequena coisa.

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Na Biblioteca Municipal Eduardo Lourenço (Guarda), fomos encontrar este livro gigante.
Com ele percebi que tivemos um dia muito feliz. Não foi nada perfeito (como não se pode ver pelas imagens), mas tivemos muitas gigantescas pequeninas coisas. E isso também me fez pensar no Manel, que encontrei por acaso (sem ser por acaso porque quando uma pessoa deseja um amigo por perto ele sempre aparece por acaso) no outro dia no facebook, que trouxe à conversa a felicidade. Falta um abraço, para não ser a fingir que é perto.

Mobile balear

Aí vem mais um bebé!!!
Um bebé para quem foram feitas muitas baleias… umas tortas, outras rotas, outras lindas! Cada uma delas a pensar na Maria Eduarda e na mãe dela (que “tem mto bom coraçao mesmo. E transmite mta confiança e mt boas energias” diz a formuladora do pedido. E foi com esse espírito que trabalhei!). Para a Maria Eduarda ficam só as baleias de encantar o soninho.

(continuo a resistir a trabalhar com feltro! mas com esta obra pensei muitas vezes em rever a minha posição…. costurar pequenino pequenininho é paciência para monge budista. E eu subi mais um degrau da iluminação têxtil (?))