Aconteceu – ALMA DA MÃE

Se há coisa nesta vida que tenho a agradecer são os projectos em que me meto sem nenhuma outra razão para além de os querer fazer. Esses trabalhos nunca foram muitos mas sempre intensos e muito felizes.  E desta vez, a coisa voltou a dar-se da melhor forma. Já há 4 anos que o teatro tem estado em banho maria de mãe. Mas quando surge o convite para criar (criar de fio a pavio, criar de doer ao começar e depois não conseguir parar) porque me querem e gostam mesmo do que faço, por mais que invente ser difícil, não consigo recusar. Tudo se alinha para um momento memorável.

Adoro desafios! Adoro provocá-los. Adoro engendrar encontros, partilhas e fazer nascer nervos à flor da pele. Gosto de ver e sentir o pânico alheio. E o meu. (…) proporcionar respirações conjuntas e construir trilhos paralelos. Surpreendo-me sempre com a coragem dos intervenientes em aceitar este trapézio criativo, sem rede, sem amarras.
O Ciclo Um Actor Um Músico é um permanente espaço de enamoramento que a cada palavra, a cada gesto, a cada acorde se renova e tonifica.

António Revez

E assim se deu no convite do António Revez e da Lendias D’Encantar para ir a Beja criar uma performance tendo por base a obra poética de Almada Negreiros… artista da minha inspiração!

O texto que construí resultou da leitura da sua obra (entre poesia, ficção e manifestos), recolhendo trechos com imagens fortes que serviram a base subliminar da performance – a memória da mãe de Almada: uma fantasia minha por cima da fantasia de Almada Negreiros, que ficou órfão de mãe com 2 anos e que, apesar de nunca ter dedicado nenhuma obra à sua memória, sempre pontuou o seu trabalho com referências à figura materna.
A construção do texto começou por um excerto de “K4 O Quadrado Azul” que se apegou a mim sem largar:

“Se tua mãe fosse viva não tinhas tu um galgo que te lambe as mãos. O galgo lambe-te as mãos por tua mãe ter morrido. Se tua mãe não tivesse morrido com pena de te deixar, o galgo não te lambia as mãos. Se tua mãe não tivesse morrido antes de te fazer sentir o grande amor que ela sentia por ti, não tinhas tu um galgo que tem a mania de te lamber as mãos. Se tua mãe não te sufocasse no desejo de querer por força que tu soubesses, dentro dos teus dois anos, que ela estoirava no excesso de uma paixão por ti não tinhas tu um galgo danado que te morde as canelas se o não deixas constantemente beijar-te as mãos.
É que todo esse excesso de paixão eternizou-se em transparência e foi-se adaptando pouco a pouco no cérebro do teu galgo, elemento de vida mais próximo de ti. Mas não te creias feliz porque toda essa raiva do teu galgo tem a consciência dos sentidos vivos da tua mãe. Essa massa fluída e indesagregável que é toda a energia da paixão de tua mãe por ti tem a consciência de se ter acondicionado no crânio do teu galgo. Por isso tua mãe tem a maldição de assistir à lucidez da tua inteligência na inexpressão do teu galgo que te lambe as mãos por uma vontade alheia à do teu galgo e diferente à da tua mãe.”

A cena foi sendo alimentada também por pinturas e desenhos do Almada: losangos de arlequim, bailarinas e acrobatas, geometrias, figuras maternas, auto-retratos, etc.  Toda essa informação foi passada ao Márcio Pereira que a tão bem a expressou na criação plástica da performance. O figurino também é assinado pelo Márcio que foi buscar uma das criações da Marta Ricardo da Tramadesign.

O corpo, parado há tanto tempo, foi-se encantando com o que eu e o Revez fomos construindo e a pouco e pouco foi obedecendo e, contra todos os meus medos, dançou no espírito de Almada.

E mesmo antes do ensaio geral, juntou-se a nós a massa que colou toda a construção e deu o sentido ao encontro “um músico um actor“, o som do baixo do Norton Daiello. Depois de tanto trabalho, o improviso tomou o seu lugar; e então, sim, então criaram-se os tempos certos, as respirações e alimentando-nos um ao outro, de alma e coração, apresentámos ao público o que a obra do Almada Negreiros fez em nós. E que bom que é trabalhar assim, com gente boa de alma e arte … receber de forma tão generosa para poder brilhar, juntos, sem sombras.

Sobre as Lendias d’Encantar, apenas a dizer que é uma casa que faz com que estejamos em casa. Do público em Beja… é bom encontrá-lo na rua com sorriso cúmplice.

Guardo ainda a presença e o trabalho silenciosos da Ana Rodrigues e do Ivan Castro. Há silêncios de ouro.

Aconteceu e a minha alegria está aqui para o provar.

ALMA DA MÃE
A partir da obra escrita de Almada Negreiros, com direcção de António Revez, texto e interpretação de Andreia Macedo, música de Norton Daiello, Cenários e Figurino de Márcio Pereira, Grafismo e Fotografia de Ana Rodrigues e Luz e Som de Ivan Castro.

Dias 24, 25 e 26 Setembro 2015
Espaço d’Os Infantes
Produção Lendias d’Encantar

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